segunda-feira, 20 de maio de 2013

O Poema Sujo



                Bem vindos à nossa revista! A equipe Poema Sujo agradece a todos que curtiram a página, e a todos que nos apoiaram e incentivaram essa ideia; em especial ao Celso Haddad por toda a ajuda prestada. O entretenimento de vocês, leitores, é primordial para o alcance de nosso objetivo. Esperamos que gostem!
                O nome do blog é uma homenagem ao livro Poema Sujo e ao autor Ferreira Gullar. A sonoridade do título nos agradou e decidimos, portanto, que seria assim chamado. Nada mais justo do que fazer a primeira matéria sobre eles, não é?! Por sorte e acaso, tivemos a oportunidade de assistir a uma palestra do Ferreira na ultima quinta feira (16/05) na UFMG.
                Gullar é certamente o maior poeta brasileiro vivo. Com 82 anos de idade, já viveu muito do que só ouvimos falar na escola ou lemos em livros! Com ou sem intenção, ele tornou-se vanguardista ao romper com a estética vigente (concretismo), devolvendo subjetivismo e sentimentos à arte. Posteriormente passa a defender a arte engajada na luta social, de onde sai o Poema Sujo. Guarda críticas secas à arte, como quando disse na palestra, que a arte moderna não é realmente arte, e que boa vontade sem talento não basta no processo de criação artística.
                A história do poema começa na parte do exílio do autor em Buenos Aires (já havia passado por Moscou, Santiago e Lima). Mas desgraçadamente a questão política se agravou, aumentando assim a repressão às esquerdas e aos exilados. Com o passaporte vencido, e ciente que os agentes da ditadura poderiam entrar a qualquer momento na Argentina a procura dos exilados: “decidi, então, escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre”.
                “vivi entregue ao poema”.
                O poeta decidiu vomitar toda a informação que tinha, em escrita automática, e a partir disso tirar o seu poema. O vômito, porém, não veio. Após alguns dias conseguiu inicia-lo, e como mágica, as palavras tomaram corpo e todas as vivencias do autor “pareciam agora acessíveis à expressão”. Nasceu assim um texto sem sequência cronológica, mas com uma série de acontecimentos simultâneos que tornam a leitura emocionante, incessante, intensa. Ao mesmo tempo que explícita e vulgar (razão do “Sujo” no nome do livro), o autor a torna extremamente íntima de sua cidade e de sua vida em São Luis, usando do cotidiano simples, tangível do lugar.
                “Assim apodrece o Anil/ao leste de nossa cidade/(...)/embora com um cheiro/que nada tinha/(...)/nem da miséria dos homens/escravos de outros/que ali vivem agora/feito caranguejos.”
                A primeira leitura do poema foi feita pelo próprio Ferreira, a pedido de Vinícius de Moraes, para um grupo de amigos. Vinicius, comovido, pediu uma copia para levar ao Brasil. Decidiram ser melhor grava-la em uma fita para trazê-la. ”Nas circunstancias, ouvi-lo dito por mim, poeta exilado, era certamente emocionante”. Dessa forma, as cópias se multiplicaram e, sem demora, apareceu um editor querendo lançar o livro, que logo ficou falado entre o povo e a imprensa.
                Começou assim, uma campanha para pedir o retorno do autor para o Brasil, e mesmo que a resposta dos ditadores tenha sido não, ele voltou. Foi levado para o DOI-CODI, onde ficou 72h em interrogatório e sofrendo ameaças, mesmo que já soubessem tudo o que ele tinha pra dizer. Ao fim disseram: “foi pra você não pensar que podia voltar assim, de graça”.
                “de qualquer maneira, devo ao poema sujo o fim antecipado do meu exílio.”
A leitura nos permite adentrar integralmente em São Luis. Diante de um relacionamento geral dos homens e suas cidades, entramos profundamente na mais pessoal São Luis de Gullar. Chega-se a um momento em que o autor nos leva tão a fundo nessa cidade, que não conseguimos sair até que o poema acabe e, quando acaba, entendemos a real essência a ser transmitida: “As casas, as cidades, são apenas lugares por onde/passando/passamos”. Se eu indico? Claro!
Texto baseado no livro e na palestra.

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. A palestra foi maravilhosa.
    Incrível ver um depoimento tão sóbrio sobre os fatos que estudamos nos livros de história e que para a nossa geração ainda é um pouco distante.
    Enriquecedor ouvir a opinião do nosso principal vanguardista vivo.
    Parabéns pelo texto Pedrim!!

    ResponderExcluir