Bem
vindos à nossa revista! A equipe Poema Sujo agradece a todos que curtiram a
página, e a todos que nos apoiaram e incentivaram essa ideia; em especial ao
Celso Haddad por toda a ajuda prestada. O entretenimento de vocês, leitores, é primordial
para o alcance de nosso objetivo. Esperamos que gostem!
O nome
do blog é uma homenagem ao livro Poema
Sujo e ao autor Ferreira Gullar. A sonoridade do título nos agradou e
decidimos, portanto, que seria assim chamado. Nada mais justo do que fazer a
primeira matéria sobre eles, não é?! Por sorte e acaso, tivemos a oportunidade de
assistir a uma palestra do Ferreira na ultima quinta feira (16/05) na UFMG.
Gullar
é certamente o maior poeta brasileiro vivo. Com 82 anos de idade, já viveu
muito do que só ouvimos falar na escola ou lemos em livros! Com ou sem
intenção, ele tornou-se vanguardista ao romper com a estética vigente
(concretismo), devolvendo subjetivismo e sentimentos à arte. Posteriormente
passa a defender a arte engajada na luta social, de onde sai o Poema Sujo. Guarda críticas secas à
arte, como quando disse na palestra, que a arte moderna não é realmente arte, e
que boa vontade sem talento não basta no processo de criação artística.
A
história do poema começa na parte do exílio do autor em Buenos Aires (já havia
passado por Moscou, Santiago e Lima). Mas desgraçadamente a questão política se
agravou, aumentando assim a repressão às esquerdas e aos exilados. Com o
passaporte vencido, e ciente que os agentes da ditadura poderiam entrar a qualquer
momento na Argentina a procura dos exilados: “decidi, então, escrever um poema
que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre”.
“vivi
entregue ao poema”.
O poeta decidiu vomitar
toda a informação que tinha, em escrita automática, e a partir disso tirar o
seu poema. O vômito, porém, não veio. Após alguns dias conseguiu
inicia-lo, e como mágica, as palavras tomaram corpo e todas as vivencias do
autor “pareciam agora acessíveis à expressão”. Nasceu assim um texto sem
sequência cronológica, mas com uma série de acontecimentos simultâneos que tornam a leitura
emocionante, incessante, intensa. Ao mesmo tempo que explícita e vulgar (razão
do “Sujo” no nome do livro), o autor a torna extremamente íntima de sua cidade
e de sua vida em São Luis, usando do cotidiano simples, tangível do lugar.
“Assim
apodrece o Anil/ao leste de nossa cidade/(...)/embora com um cheiro/que nada
tinha/(...)/nem da miséria dos homens/escravos de outros/que ali vivem
agora/feito caranguejos.”
A
primeira leitura do poema foi feita pelo próprio Ferreira, a pedido de Vinícius
de Moraes, para um grupo de amigos. Vinicius, comovido, pediu uma copia para
levar ao Brasil. Decidiram ser melhor grava-la em uma fita para trazê-la. ”Nas
circunstancias, ouvi-lo dito por mim, poeta exilado, era certamente
emocionante”. Dessa forma, as cópias se multiplicaram e, sem demora, apareceu
um editor querendo lançar o livro, que logo ficou falado entre o povo e a imprensa.
Começou
assim, uma campanha para pedir o retorno do autor para o Brasil, e mesmo que a
resposta dos ditadores tenha sido não, ele voltou. Foi levado para o DOI-CODI,
onde ficou 72h em interrogatório e sofrendo ameaças, mesmo que já soubessem
tudo o que ele tinha pra dizer. Ao fim disseram: “foi pra você não pensar que
podia voltar assim, de graça”.
“de
qualquer maneira, devo ao poema sujo o fim antecipado do meu exílio.”
A leitura nos permite adentrar
integralmente em São Luis. Diante de um relacionamento geral dos homens e suas
cidades, entramos profundamente na mais pessoal São Luis de Gullar. Chega-se a um
momento em que o autor nos leva tão a fundo nessa cidade, que não conseguimos
sair até que o poema acabe e, quando acaba, entendemos a real essência a ser
transmitida: “As casas, as cidades, são apenas lugares por
onde/passando/passamos”. Se eu indico? Claro!
Texto baseado no livro e na palestra.